Seguro rural: A gestão de incêndios como pilar estratégico do mercado

Os incêndios florestais têm se tornado uma das maiores ameaças ao setor agropecuário, comprometendo não apenas a produtividade do solo e a segurança alimentar, mas também a estabilidade econômica de produtores e seguradoras.

As alterações climáticas, aliadas às mudanças no uso da terra e a práticas inadequadas de manejo, intensificam a frequência e severidade dos incêndios, exigindo do mercado segurador uma abordagem mais estruturada para gestão de riscos e precificação de apólices do seguro rural.

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Impactos dos incêndios na fertilidade do solo e na produção agrícola

Os danos causados pelo fogo vão muito além da destruição imediata da vegetação. A combustão da camada orgânica do solo resulta na perda de nutrientes essenciais, como carbono e nitrogênio.

Estudos indicam que incêndios severos podem acarretar a perda de mais de 10 mil toneladas de carbono por hectare e entre 450 a 620 quilos de nitrogênio por hectare, reduzindo drasticamente a fertilidade do solo e tornando as terras menos produtivas.

Além disso, o fogo pode aumentar temporariamente o pH do solo, tornando-o mais alcalino devido à liberação de compostos presentes nas cinzas. No entanto, essa alcalinização é transitória e pode afetar a disponibilidade de nutrientes e a atividade microbiana.

A estrutura e porosidade do solo também são impactadas, resultando em maior compactação e menor infiltração de água, o que contribui para a erosão e para a degradação da terra. Em áreas agrícolas, a recuperação pode levar até três anos, enquanto ecossistemas naturais podem necessitar de décadas para se regenerarem completamente.

O crescimento dos incêndios e seus impactos no setor segurador

Relatórios do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) indicam que a frequência e a intensidade dos incêndios florestais estão projetadas para aumentar nas próximas décadas. Estima-se um crescimento de incêndios extremos de 14% até 2030, 30% até 2050 e 50% até o final do século. Regiões anteriormente menos afetadas, como o Ártico, também estão sob risco crescente.

Os incêndios representam aproximadamente 16,5% das emissões globais de dióxido de carbono (CO₂) anualmente. Entre 2001 e 2023, essas emissões aumentaram 60% globalmente, com destaque para florestas extratropicais, onde triplicaram nesse período.

No Brasil, mudanças no uso da terra, incluindo incêndios, responderam por 49% das emissões brutas de gases de efeito estufa em 2021. Esses dados reforçam a necessidade de políticas eficazes para mitigar os impactos dos incêndios na crise climática e na segurança do agronegócio.

Diante desse cenário, o mercado segurador precisa se adaptar a esse novo paradigma, considerando os riscos crescentes ao precificar apólices e avaliar sinistros. A alta volatilidade climática tem elevado os custos das indenizações, tornando os seguros rurais mais caros e, em alguns casos, inviáveis para pequenos e médios produtores.

Perícia especializada

A regulação de sinistros requer perícia técnica especializada para distinguir perdas intencionais, negligentes ou inevitáveis.

O uso de sensores remotos, imagens de satélites e dados meteorológicos é essencial para garantir transparência na avaliação dos danos.

A incorporação de tecnologias como inteligência geoespacial e machine learning à análise de risco permite a criação de produtos inovadores, como apólices que oferecem incentivos financeiros para produtores que adotam medidas mitigadoras. Essa abordagem transforma o seguro em um mecanismo ativo de gestão de risco.

O papel da prevenção e da inovação na gestão de risco

A prevenção deve ser um dos principais pilares na formulação de produtos seguráveis. Exigir planos de manejo do fogo, monitoramento por satélite, capacitação de brigadas de incêndio e sistemas de alerta precoce pode reduzir significativamente os impactos. Essas estratégias permitem precificação mais justa do risco, fortalecendo a sustentabilidade do setor.

Para minimizar os prejuízos causados pelos incêndios florestais, é fundamental que o mercado segurador invista em estratégias de prevenção e inovação. Algumas soluções incluem:

  1. Monitoramento Contínuo via Satélite: O uso de imagens de satélite e sensores remotos permite o monitoramento em tempo real de áreas de risco, facilitando a detecção precoce de incêndios e a avaliação dos danos causados.
  2. Uso de Inteligência Artificial (IA) na Precificação de Apólices: Algoritmos de IA podem analisar dados históricos e prever regiões de maior risco, permitindo que as seguradoras personalizem suas apólices com base em análises de risco mais precisas.
  3. Modelos de Seguro Paramétrico: Apólices baseadas em índices climáticos podem acelerar os pagamentos a produtores rurais afetados, reduzindo a burocracia e aumentando a resiliência financeira do setor.

Nesse sentido, a gestão de incêndios florestais vai além de uma questão ambiental – é um desafio estratégico para a segurança alimentar e a estabilidade econômica do mercado segurador. O setor precisa evoluir para um modelo baseado em prevenção e inovação, consolidando o seguro rural como ferramenta essencial na gestão de riscos climáticos.

*Artigo escrito em parceria com Aluísio Metelo Junior, Coronel do Corpo de Bombeiros Militar do Estado de Mato Grosso. Graduado em Engenharia de Incêndio, é especialista em Prevenção e Combate a Incêndios Florestais e perito de incêndio florestal.

Atualmente preside o Comitê Nacional de Gestão de Incêndios Florestais – CONAGIF/LIGABOM e integra o Comitê Nacional do Manejo Integrado do Fogo – COMIF, vinculado ao Ministério do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas.

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