Por que o Ibovespa opera no ‘azul’, na contramão das principais bolsas do mundo?

Na contramão, o Ibovespa (IBOV) ignora parte da liquidação das principais bolsas internacionais e tenta firmar alta nesta quinta-feira (3) — sendo o único índice no azul em todo o mundo. Nas primeiras horas do pregão, o índice superou os 132 mil pontos.

Por volta de 11h (horário de Brasília), o principal índice da bolsa brasileira registrou avanço de 1,04%, aos 132.552,11 pontos, na máxima intradia. Em destaque, as ações das varejistas operam em alta beneficiadas pela queda na curva de juros futuros. Acompanhe o Tempo Real. 

Hoje (3), os investidores reagem ao plano tarifário dos Estados Unidos, anunciado pelo presidente Donald Trump no início da noite da última quarta-feira (2). 

Trump informou que o país adotará uma nova política comercial que combina uma tarifa universal de 10% sobre todas as importações com tarifas recíprocas adicionais, direcionadas a países com grandes déficits comerciais e barreiras mais elevadas à entrada de produtos norte-americanos.

A tarifa-base de 10% entra em vigor em 5 de abril, enquanto as tarifas recíprocas — que podem chegar a 49% — serão aplicadas a partir de 9 de abril. Hoje (3), as taxas de 25% sobre a importação de automóveis nos EUA entrou em vigor.

De acordo com a Casa Branca, China (com taxa de 34%), Vietnã (46%), União Europeia (20%) e Taiwan (32%) serão os mais impactados. A América Latina, com exceção do México, será sujeita à alíquota-base, de 10% — já que nesses países, os EUA têm superávits comerciais.

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O que está por trás da alta do Ibovespa?

Um dos motivos que explicar a leve alta do Ibovespa é que alíquota de 10% sobre os produtos brasileiros pelos Estados Unidos ficou abaixo do esperado pelo mercado.

“A tarifa é ruim para todo mundo, mas, comparativamente, o Brasil está melhor que os pares emergentes”, afirma Frederico Nobre, gestor de investimentos da Warren.

Na mesma linha, a XP investimentos avalia que as tarifas “menos severas” impostas ao Brasil, pode posicionar o país como menos exposto ao risco tarifário, “beneficiando-se de uma contínua rotação de fluxos de capital para fora dos EUA”.

O impacto da tarifa também pode ser limitado, na avaliação do analista Rafael Passos, da Ajax Asset.

As exportações brasileiras para os EUA equivalem a aproximadamente 2% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, enquanto as importações de produtos norte-americanos representam cerca de 12% (próximo a 2,2%) das vendas totais do país.

“As consequências podem ser mais significativas, particularmente para setores com maior exposição ao mercado dos EUA (bens de capital e açúcar & etanol, por exemplo)”, afirma Passos.

O Brasil ainda pode se beneficiar de uma guerra comercial, principalmente, por ser um grande exportador de commodities.

“Entre 2018 e 2020, durante a guerra comercial com a China, a demanda chinesa por commodities migrou dos EUA para o Brasil, favorecendo produtos como soja e milho”, lembram os analistas da XP.

A visão também é compartilhada pela economista do BTG Pactual, Iana Ferrão. Para ela, o Brasil perderá menos do que outros parceiros comercias em uma guerra comercial. “A magnitude dessa perda dependerá de quanto a economia mundial se deteriorará.”

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A resposta do Brasil ao ‘tarifaço’ de Trump

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o governo tomará “medidas cabíveis” para defender a economia doméstica.

“Defendemos o multilateralismo e o livre comércio e responderemos a qualquer tentativa de impor o protecionismo, que não cabe mais hoje no mundo”, disse Lula em evento em Brasília (DF).

“Diante da decisão dos Estados Unidos de impor uma sobretaxa aos produtos brasileiros, tomaremos todas as medidas cabíveis para defender as nossas empresas e os nossos trabalhadores, tendo como referência a lei da reciprocidade econômica aprovada ontem pelo Congresso Nacional e as diretrizes da Organização Mundial do Comércio”, acrescentou o presidente.

Ontem (2), a Câmara dos Deputados aprovou o projeto de lei (PL) que estabelece critérios para a reação do Brasil a barreiras e imposições comerciais de nações ou blocos econômicos contra produtos nacionais.

Conhecida como PL da Reciprocidade, a proposta fornece ao Executivo instrumentos legais para reagir a eventuais decisões unilaterais de outros países que impactem negativamente a competitividade brasileira. Já aprovado no Senado, o texto foi enviado para sanção presidencial.

O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) e o Ministério das Relações Exteriores (MRE) também disseram, em nota conjunta, que as tarifas dos EUA “violam os compromissos dos EUA perante a Organização Mundial do Comércio”.

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