Do robô à vacina, seis tecnologias avançadas que já transformam o combate ao câncer no mundo

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Com o envelhecimento da população, a exposição a fatores ambientais e o avanço nos métodos de detecção, o número de casos de câncer tem aumentado no Brasil e no mundo.

Segundo o relatório Global Cancer Observatory, da Organização Mundial da Saúde (OMS), o planeta registrará 35 milhões de novos casos de câncer por ano até 2050, um salto de 77% em relação aos 20 milhões de diagnósticos feitos em 2022.

No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima que 704 mil novos casos são diagnosticados todos os anos, sendo os de pele não melanoma, mama e próstata os mais frequentes.

Diante dessa escalada, a ciência vem respondendo com um arsenal cada vez mais sofisticado de inovações tecnológicas.

Inteligência artificial, terapias personalizadas, cirurgias robóticas e vacinas com RNA mensageiro deixaram de ser promessas futuristas para se tornar parte da realidade em hospitais de referência e centros de pesquisa, inclusive no Brasil.

IA e algoritmos para diagnósticos mais rápidos e tratamentos mais precisos

A inteligência artificial (IA) tem revolucionado a oncologia por sua capacidade de analisar grandes volumes de dados com rapidez e precisão.

No diagnóstico, algoritmos treinados com milhares de imagens de exames (biópsias, mamografias, tomografias) conseguem identificar padrões associados ao câncer, muitas vezes imperceptíveis ao olho humano.

Nos EUA, pesquisadores do National Cancer Institute criaram um sistema de IA que analisa lâminas histopatológicas e prediz com até 80% de acurácia se o paciente responderá à imunoterapia. Isso reduz tempo e evita tratamentos ineficazes.

No Brasil, o Hospital Albert Einstein desenvolveu uma IA que segmenta tumores automaticamente em exames de imagem, apoiando decisões clínicas.

Já o Hospital de Amor, com apoio do Google, aplica IA para triagem de exames ginecológicos em áreas remotas, onde há escassez de citopatologistas, como a Amazônia Legal.

Terapia CAR-T: reprogramação celular para combater tumores hematológicos

A terapia CAR-T (Receptores de Antígenos Quiméricos em Linfócitos T) é uma forma de imunoterapia de última geração. Funciona assim:

  1. As células T do paciente (linfócitos) são retiradas do sangue.
  2. Em laboratório, essas células são modificadas geneticamente para produzir receptores artificiais (CARs) que reconhecem antígenos específicos nas células tumorais.
  3. As células são expandidas e reinfundidas no paciente, onde iniciam o ataque às células cancerígenas.

No Brasil, a Anvisa aprovou em 2022 os medicamentos Kymriah (Novartis) e Yescarta (Gilead). Eles são indicados para linfoma difuso de grandes células B e leucemia linfoblástica aguda recidivante ou refratária.

O procedimento é realizado apenas em centros autorizados, como o Sírio-Libanês e o A.C. Camargo. Casos tratados demonstraram respostas duradouras, mesmo após falhas em múltiplas linhas de quimioterapia.

Estudo clínico conduzido pelo Hospital Clínic de Barcelona mostrou taxas de remissão completa superiores a 90% em pacientes com leucemia linfoide aguda tratados com terapia CAR-T.

No entanto, o custo elevado — cerca de R$ 2 milhões por tratamento — e os riscos de efeitos colaterais graves ainda limitam o uso em larga escala.

Vacinas de mRNA: imunoterapia personalizada avança com testes no Brasil

A tecnologia de vacinas de RNA mensageiro (mRNA), conhecida por seu uso contra a Covid-19, está sendo adaptada para combater diversos tipos de câncer.

Diferentemente das vacinas preventivas, essas versões terapêuticas são personalizadas com base nas mutações genéticas do tumor de cada paciente, estimulando o sistema imune a atacá-lo de forma direcionada.

Empresas como BioNTech e Moderna já estão em fase avançada de testes para vacinas contra melanoma, câncer de pâncreas e pulmão.

No Brasil, o Instituto Butantan firmou em 2024 parcerias com centros de pesquisa para desenvolver vacinas terapêuticas com mRNA para tipos prevalentes como câncer gástrico e de colo de útero. Os primeiros ensaios clínicos estão previstos para 2025.

Cirurgias robóticas ampliam precisão e são incorporadas ao SUS

A cirurgia robótica utiliza braços mecânicos comandados por um cirurgião em console, oferecendo mais precisão e menor trauma ao paciente. A tecnologia é usada com frequência em cânceres de próstata, útero, rim e intestino.

Em 2023, o Hospital Universitário da Universidade Federal do Maranhão realizou a primeira cirurgia robótica oncológica da rede pública do Nordeste. Outros centros de referência, como o Sírio-Libanês e o Oswaldo Cruz, já usam a técnica há mais de uma década.

A incorporação no SUS é considerada estratégica para reduzir o tempo de internação e melhorar os índices de recuperação em pacientes oncológicos.

Nanotecnologia e robôs miniaturizados inovam diagnóstico e tratamento

Outra fronteira tecnológica é a nanotecnologia, que permite o transporte de medicamentos diretamente ao tumor, poupando tecidos saudáveis.

No Brasil, o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Nanotecnologia Farmacêutica (INCT-Nanofarma), sediado na Unifesp, desenvolve nanopartículas para câncer de mama e pulmão, atualmente em fase pré-clínica.

Internacionalmente, o Imperial College London desenvolveu pequenos robôs guiados por ímãs para detectar e tratar câncer colorretal.

Esses dispositivos circulam pelo intestino e geram imagens em 3D, permitindo diagnóstico precoce e liberação precisa de medicamentos. Os testes clínicos com humanos estão em fase de aprovação.

Genômica e medicina personalizada se expandem em centros brasileiros

A análise genética de tumores permite identificar mutações e direcionar terapias específicas, como os inibidores de EGFR, ALK e BRCA.

O Hospital A.C. Camargo, referência nacional, já sequenciou mais de 10 mil genomas tumorais como parte de seu programa de medicina personalizada.

O Instituto D’Or e a Dasa também conduzem estudos para identificar mutações genéticas e associar essas descobertas a respostas terapêuticas, encurtando o caminho entre o diagnóstico e o tratamento mais adequado.

Desigualdade no acesso ainda é um obstáculo no Brasil

Embora os avanços sejam significativos, o acesso às novas tecnologias ainda está restrito a centros de excelência ou à rede privada.

Dados da Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia (Abrale) mostram que o tempo médio entre o diagnóstico e o início do tratamento no SUS ainda ultrapassa 90 dias, desrespeitando a Lei dos 60 Dias, que garante atendimento oncológico rápido.

A judicialização de tratamentos de alto custo também vem crescendo, reflexo da distância entre inovação e equidade.

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