Macaé Evaristo faz pedido de desculpas em nome do estado brasileiro aos familiares das vítimas encontradas em vala de Perus


Ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) pediu desculpas em cerimônia que reconheceu a negligência e manejo das ossadas. O ato foi realizado a partir de acordo judicial entre a União e o Ministério Público Federal no final do ano passado. Ministra Macaé Evaristo faz pedido de desculpas referente à vala clandestina de Perus
Reprodução/Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania
A ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) Macaé Evaristo pediu desculpas, em nome do estado brasileiro, aos familiares de desaparecidos políticos, vítimas da ditadura militar (1964-1985), pela negligência na identificação e manejo de ossadas encontradas da vala clandestina de Perus, que fica no cemitério Dom Bosco, em São Paulo.
A vala foi encontrada em 4 de setembro de 1990. No local, foram enterrados ilegalmente corpos de pessoas indigentes, de desconhecidos, e daqueles considerados opositores ao regime de opressão iniciado em 1964.
A área somente pôde ser aberta após o restabelecimento do regime democrático, quando foram encontradas 1.049 ossadas. Um monumento em homenagem às vítimas da repressão foi erguido no cemitério.
A cerimônia foi aberta ao público e ocorreu nesta segunda-feira por ser a data em que se comemora o “Dia da Memória, pela Verdade e pela Justiça”.
Brasil, São Paulo, SP. 04/09/1990. Funcionários da prefeitura colocam em sacos plásticos cerca de 1.500 ossadas encontradas em uma vala do cemitério Dom Bosco em Perus, zona oeste da capital
Itamar Miranda/Estadão Conteúdo/Arquivo
O ato foi realizado a partir de acordo judicial entre a União, representada judicialmente pela Advocacia-Geral da União (AGU), e o Ministério Público Federal (MPF), homologado em 3 de dezembro de 2024. O acordo estabeleceu a realização da cerimônia pública para ser lido o pedido de desculpas.
“A ação civil pública se deu no atraso da identificação dos desaparecidos políticos. O governo federal, através do Ministério os Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), está comprometido a continuidade e finalização dos trabalhos de identificação dos remanecentes ósseos da vala de Perus”, afirmou a ministra.
E ressaltou: “Uma vez que o estado brasileiro reconhece as graves violações de direitos humanos que resultaram no desaparecimento de brasileiros e brasileiros, confome o relatório da Comissão da Verdade. O MDHC pede desculpa aos familiares dos desaparecidos políticos durante a ditadura militar e à sociedade brasileira pela negligência entre 1990 e 2014 na identificação das ossadas encontradas na vala de Perus”.
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Em nota divulgada, o advogado-geral da União, Jorge Messias, ressaltou que o acordo firmado pela AGU com o MPF permite o resgate da memória e da verdade.
“Conhecer a verdade é o que nos permite avançar como sociedade rumo a um país verdadeiramente democrático”, diz ele. “Eu espero que o pedido de desculpas possa, de algum modo, trazer um pouco de paz para os familiares dessas vítimas da violência de Estado”, disse.
“O ato é histórico porque o horror não pode ser naturalizado. Memória e verdade são fundamentais, para que não se esqueça e para que nunca mais aconteça”, ressaltou a procuradora-geral da União, Clarice Calixto, em nota divulgada pela Advocacia-Geral da União.
Ministra Macaé Evaristo faz pedido de desculpas sobre vala clandestina de Perus
Divulgação/Unifesp
Conciliação
O Procurador Nacional de Assuntos Internacionais, Boni de Moraes Soares, destacou, em nota, que o reconhecimento das violações aos direitos humanos decorrentes do regime de exceção reflete o compromisso do Estado brasileiro com a democracia.
“O pedido de desculpas que será formulado pela União como resultado desse acordo histórico é parte de um processo contínuo de fortalecimento das instituições democráticas e de desconstrução de narrativas que serviram para justificar a ditadura militar”, afirmou Boni Soares, em nota.
Brasil, São Paulo, SP. 04/09/1990. Funcionários colocam em sacos plásticos cerca de 1.500 ossadas encontradas em uma vala do cemitério Dom Bosco em Perus, zona oeste da capital.
Itamar Miranda/Estadão Conteúdo/Arquivo
Ney Wagner Gonçalves Ribeiro Filho reafirmou também que a postura judicial da União em casos que discutem as violações aos direitos humanos ocorridas durante o regime ditatorial é sempre proativa e conciliatória.
“A União, em processos judiciais de rediscussão dos eventos históricos da ditadura militar, busca reconhecer os fatos violadores dos direitos humanos e estabelecer soluções conjuntas com autores, vítimas e familiares para reparar danos, assumir responsabilidades estatais e restabelecer a verdade histórica do período. Essa abordagem cooperativa reflete o compromisso da União em promover justiça, memória e reconciliação nacional, rompendo com o legado autoritário”, destaca Ribeiro Filho.
Conforme a Advocacia-Geral da União, o acordo com o MPF foi resultado de audiência de conciliação que contou com a atuação dos advogados da União Ney Wagner Gonçalves Ribeiro Filho, coordenador Nacional de Assuntos Internacionais da Procuradoria-Geral da União, Tonny Teixeira de Lima, coordenador do Núcleo de Controvérsias de Direito Internacional dos Direitos Humanos da Procuradoria Nacional da União de Assuntos Internacionais e Jerusa Gabriela Ferreira, da Consultoria Jurídica junto ao Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania.
Descoberta da vala de Perus completa 30 anos
Veja linha do tempo desde a descoberta da vala clandestina:
1990: Local é descoberto em 4 de setembro e Prefeitura de São Paulo exuma mais de 1000 sacos plásticos contendo as ossadas;
1990: Trabalho de identificação é iniciado no departamento de Medicina Legal da Unicamp;
1994: Análises são interrompidas;
1998: Verifica-se a má conservação dos ossos, que ficaram armazenados em péssimo estado de conservação, empilhadas em uma sala, com carteiras escolares em cima dos sacos, além de estarem molhadas devido a uma inundação ocorrida no local;
1999: Ministério Público Federal (MPF) interveio e em setembro foi instaurado na Procuradoria da República em São Paulo o Inquérito Civil Público nº 06/99, para apurar o lento andamento dos trabalhos na identificação das ossadas;
2001: Com a intervenção do MPF, a Secretaria de Segurança Pública providenciou a transferência das ossadas da Unicamp para o Instituto Médico Legal, para prosseguimento dos trabalhos sob a responsabilidade da Universidade de São Paulo (USP);
2002: ossadas são transferidas para o cemitério do Araçá;
2006: Trabalhos da USP são paralisados;
2009: Paralisação levou ao ajuizamento de ação civil pública pelo MPF em São Paulo;
2014: CAAF recebe as 1.047 caixas e análise é assumida pelo Grupo de Trabalho Perus.
2017: Mais da metade das caixas tiveram seu conteúdo limpo e analisado e amostras de ossadas são enviadas para laboratório na Bósnia.
2018: Ossada de Dimas Antônio Casemiro é identificada.
2019: Mais de 900 ossadas limpas e examinadas.
2019: Decreto assinado por Bolsonaro impede trabalho de equipes técnicas em ossadas de Perus
2022: Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos foi encerrada em dezembro pelo então presidente Jair Bolsonaro.
2024: Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Política retoma buscas por restos mortais de vítimas da ditadura militar.
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